
O privilégio de ter problema de ideias
Em Sandman, Neil Gaiman conta a história de Richard Madoc, um escritor que sequestra Calíope, uma das musas da mitologia grega. Como punição, o Sonho faz com que as ideias passem a surgir sem parar, brotando de forma incessante e sufocante. Madoc produz novas ideias sem descanso, mas cada uma aumenta seu sofrimento. A criatividade se transforma em tormento.
Tenho pensado nessa história nos últimos dias.
As ideias estão surgindo em um ritmo maior do que consigo acompanhar: um aplicativo novo, uma funcionalidade para outro projeto, um post que gostaria de escrever, uma reflexão que renderia um texto interessante. A lista continua crescendo enquanto o tempo disponível permanece o mesmo.
Nos últimos dias consegui implementar dois aplicativos:
- Mímir, inspirado no deus nórdico da sabedoria, é meu gerenciador de favoritos;
- Jano, inspirado no deus romano das portas e transições, é um gerenciador de segredos que pretendo abrir como open source em breve.
Ambos seguem minha stack preferida e resolvem problemas da forma que considero mais adequada. Cada linha de código foi escrita sem cliente, prazo ou quaisquer interferências externas.
Verdade seja dita: dois aplicativos concluídos em poucos dias é um resultado do qual fico satisfeito.
Enquanto isso, os textos ficaram para depois. Passei por ideias sobre mercado de trabalho, avaliações de modelos locais de IA, técnicas de estruturação de prompts para modelos menores e até observações sobre o comportamento dos gatos. Anotei algumas delas, deixei outras escapar — e não publiquei nenhuma.
Existe um desconforto nessa situação. A sensação é de que as ideias chegam mais rápido do que consigo transformá-las em algo concreto. Sempre há projetos esperando atenção e assuntos que mereceriam mais tempo do que consigo dedicar.
Quando observo essa sensação com mais calma, percebo que ela revela algo positivo.
Se a minha dificuldade está em escolher entre várias ideias interessantes, significa que tenho a liberdade de fazer essa escolha. Posso decidir onde investir meu tempo. Posso construir projetos porque tenho vontade de construí-los. Posso deixar uma ideia em espera sem receio de que ela seja a última.
Essa é uma posição privilegiada.
Muitas preocupações ocupam espaço demais na vida das pessoas: contas para pagar, instabilidade financeira, problemas de saúde, insegurança sobre o futuro. Comparado a isso, ter mais ideias do que tempo disponível é uma limitação bastante confortável.
Madoc não podia interromper o fluxo de ideias, mas eu posso. Posso escolher o que merece atenção agora e aceitar que o restante ficará para outro momento. Os textos que não escrevi continuam disponíveis; algumas ideias voltarão mais maduras e outras desaparecerão sem fazer falta.
Criatividade acompanhada de liberdade de escolha é muito diferente de criatividade acompanhada de obrigação. Uma amplia possibilidades, enquanto a outra consome quem a tem.
O desconforto continua existindo e provavelmente continuará aparecendo de tempos em tempos. Ainda assim, prefiro lidar com o excesso de possibilidades do que com a ausência delas.